Ainda não passei pela experiência de grelhar douradas,
Manuel. Portanto, é enquanto experimento outras actividades que vou pensando
nestes e noutros assuntos. Quero dizer, lavo uma chávena, abro um livro, puxo por um cesto com rodas no supermercado, escolho nectarinas, olho para as pessoas, misturo água ao leite para um gatinho que é quase só orelhas de tão pequeno, dou uma palmada noutro maior que me quer trincar os pés e as rajadas de vento que passam por mim são as mesmas que agitam as árvores. Procuro o meu
unicórnio azul, e Ulla Hahn (Relógio d'Água, 1992, trad. João Barrento) diz:
Este Verão cai com rosasbravas cai com risosbravos cai com instantesbravos sobre a minha memóriaPersegue-me até à sombra quentede restos de muros altos verdesdeixa-me cair figos maduros na bocaAdormece-me ao compasso do sanguecompasso dos cedrosdeita-se leve cheio de volúpia lassosobre mim o mundo. E eu fico a perguntar-me, eu que reservo para a literatura o mesmo cuidado que tenho para com tudo o resto, como pode ser isso, perda de tempo, como posso eu perder o que não possuo? Não eu. Eu nunca detive o tempo.
