quinta-feira, 5 de novembro de 2009



“Morte ao Sol”



Eu gosto da Carla Bruni. Especialmente, gosto muito do primeiro disco da Carla Bruni. Eu gosto muito do Rui Reininho e das letras dos GNR, especialmente daquelas que não fazem sentido nenhum. Porque não fazem sentido nenhum. E não sei porque nunca ninguém lhe perguntou qual é o método de composição dele. Aqueles versos e a métrica, tudo aquilo é fantástico. Ia adorar saber o que ele pensa. Oiçam Morte ao Sol ou Pronúncia do Norte, deitados ao lado de alguém de quem gostem muito e, se possível, depois de terem fumado um piriri. Se a companhia for boa terão um grande momento porque tudo aquilo é muito, muito à frente. E felizmente não tenho explicações para gostar tanto. Como não tenho explicação para gostar da maioria das coisas que gosto, ou para gostar sempre desalmadamente das pessoas da minha vida. Mesmo quando essas pessoas deixam de gostar de mim. E isso acontece, sim.
Para isto dos nossos amores, de entender bem o porquê dos nossos amores, fazemos imensas perguntas existenciais quando somos mais novos e depois se tivermos juízo, ao longo da vida e sempre que coisas estranhas voltem a acontecer, aprendemos a deixar-nos levar, caladinhos que nem um rato e a ouvir de joelhos o Chet Baker. O Chet Baker que sabia muito bem o que é ficar sem Norte. O amor passa a ser, para nosso bem, igualzinho àquela música, uma espécie de Let´s get lost , isto é, um vale tudo menos tirar olhos.
Quem ama como deve ser, sabe que o amor é bom quando é uma perdição, quando o amor é uma gula e um desejo e uma luxúria e preguiça e vaidade e é também mais coisas que as palavras não dizem, mas que devem estar todas naquela representação do Bosch dos Sete Pecados Capitais.
Uma vez, um amigo meu disse-me que eu precisava ser mais organizadinha na minha escrita. Sei que sim, mas como ainda não sou, terão o direito de achar que estou maluca, se vos disser que também posso morrer de vontade de uma feijoada da mesma maneira e tanto, como morro de vontade de alguém de quem goste, principalmente se estou a fazer dieta. Pessoas bem amadas comem que se desunham, ou então não comem nada, mas andam sempre muito, muito felizes. E a felicidade é uma coisa que interessa tanto como o excesso e o excesso não se compadece com dietas e as pessoas que fazem dietas- e bebem Coca Zero - são as mesmas que dizem que não são ciumentas.
Pronto, finalmente chegámos. E alguém que não ande a tomar comprimidos estará interessado em pessoas que dizem, normalmente muito alto: Ai eu cá não sou ciumenta(o?). Olhem, então na minha vida é assim: Quem não for excessivo a comer e no amor pode sair logo. E quem não tiver já morrido de ciúmes muitas vezes na vida, e quem não for ficar verde de ciúmes meus, ora essa, idem.
O amor não é uma coisa light nem limpinha. O amor não obedece aos controleiros da ASAE. Eu quero ciúmes e cenas para depois fazer as pazes com o meu amor. Pessoínhas muito politicamente correctas, que bebem Coca Zero e comem saladas são imediatamente empandeiradas. E isto não se trata de um fundamentalismo bacoco. Acontece-me. Sou assim. Acabo sempre a morrer de ciúmes dos excessivos e comilões. Os que no amor navegam sem bússola e gostam de carne em sangue. Os que choram baba e ranho e andam sempre com Kleenexes porque complicam tudo e se angustiam com a quantidade de outros seres maravilhosos, lindos e interessantes que cruzam as nossas vidas diariamente.
Normalmente os muito ciumentos, como eu, têm um problema. Aliás têm vários. Mas o principal é a mistura explosiva de egotismo, insegurança e imaginação. Que nos torna especialmente nojentinhos e tortuosos e com dores que normalmente vão desde as articulações à raiz dos cabelos.
O Caetano Veloso, ciumento confesso explica tudo muito bem explicadinho nos versos daquela outra música brilhante, cantada pela Elza Soares (olha outra), O ciúme dói nos cotovelos, na raiz dos cabelos, gela a sola dos pés e depois ainda completa com uma tal de luz branca que se acende no umbigo. Ora todos nós, ciumentos confessos, sabemos muito bem o que é essa luzinha branca esquisita, que se acende no nosso umbigo egocêntrico, quando estamos à beira de uma avalanche de ciúmes. E não é bom, não é, não é, não é. É horrível, incapacitante e burro. Se há coisa que o ciúme é, é burro.
Outro dia, atacadíssima, acabei a deambular pela Avenida Ataúlfo de Paiva, às 23.42 h, sem querer saber dos pivetes que tentavam, com dedicação sem precedentes, parar-me para me engraxar as Havaianas. Nem desconfiei, quis lá saber que fosse humanamente impossível engraxar Havaianas, maluca de todo, porque o meu amor se estava a apaixonar, notem, se estava a apaixonar - o problema não era ele já estar apaixonado, era o caminho, o estar a, o momento espectacular em que se está quase, e a beber gins tónicos, mas ainda não – por outra alminha. E o pior é que era uma alminha gira, inteligente e com mamas verdadeiras e na minha cabeça deviam estar já a discutir, há uma hora e tal, a vanguarda cinematográfica dos anos 20 e O Couraçado Potemkin, do Eisenstein, o que só os poderia levar a um lugar qualquer com uma cama redonda com colchão de água, uma vista espectacular para o Oceano Atlântico e as Ilhas Cagarras. Tenho dias que não me aguento... Será que a Carla Bruni é ciumenta?

Publicado na revista do i, Nós Ciumentos




25 de Abril de 1974 A Cólera Divina A Mulher Nua A Paixão segundo G. H. A Sede Entre os Limites à Sua imagem a ver a banda passar A Viagem do Elefante Adalberto Alves Adélia Prado Adília Lopes afectos agarra a rapariga pela cintura Alela Diane Amor é descanso de busca Amor Nosso de Cada Um de Nós Amor romântico Amores Ana Hatherly Ana Teresa Pereira Anna Ternheim António Gonçalves Anywhere on this road Aprendi a maravilhar-me April Arnaldo Saraiva Baladas Hebraicas Barry Schwartz Billie Holiday Blame it on my youth Blowin' in the wind Bob Dylan Broken Social Scene Canción de las simples cosas Carlos Ascenso André Ces petits riens Cesar Isella Charlie Parker Christina Courtin Clarice Lispector Com Licença Poética Contos Cruéis Cry me a river Dave Brubeck David Hockney Descansar dos homens despedidas Dias de tempestade e de silêncio Dizzie Gillespie Dizzy Gillespie Egon Schiele Elizabeth Bishop Else Lasker-Schüler Em busca do meu unicórnio azul esta distância que nos une Eugene Wright Extraordinary Machine Falling slowly faz de conta que é um poema Felled Totem I Fiona Apple Fishermen at Sea Foreign Country Fotos Françoise Hardy Frou Frou Glen Hansard Grândola Vila Morena Há muito tempo que que quero escrever este post Helena Almeida Hello Goodbye Her DIsappearing Theme Hilda Hilst Holly Cole Hot House I dreamed a dream I'm a Vamp I'm gonna sit right down and write myself a letter idade inéditos Irene Lisboa Janis Joplin Jeff Buckley Jesca Hoop. Love Is All We Have Joan as Police Woman João Barrento Joe Morello John Parish Jon Brion José Saramago Joy Division Klimt La question Lábio Cortado Laços de Família Laureano Silveira Let go Lhasa Look what they've done to my song Love me if you dare Loveology Lover you should have come over Luísa Costa Gomes Luiza Neto Jorge M. Ward Make It Go Away manuel a. domingos Manuel Mujica Lainez Manuel Poppe mapa Marguerite Duras Maria de Lourdes Guimarães Maria Graciete Besse Maria Tecce Marianne Faithfull Mark Lanegan Marketa Irglová Marquês de Chamilly Melanie Safka My Favourite Things Não se diz mais nada Não sou uma andorinha Nice work if you can get it notas avulsas Nu azul O Diabo e o Filósofo O Marinheiro de Gibraltar O Meu Coração É Árabe O Pássaro de Vidro O Pavão Negro O Unicórnio Ode descontínua e remota para flauta e oboé Oh My Mr. Blue Olhar Fractal Omertà One Art Os Pássaros Brancos e Outros Poemas Ovídio Pablo Picasso página 161 Para não desaprender a fala Para viver um grande amor Passover Patchwork Paul Desmond Paulo César Nascimento PJ Harvey Plácido Poema para o Zé Poesia Vertical por razões que nos escapam Preciosidade Prémio Nacional Trindade Coelho Quem me feriu perdoe-me Querido Diário Regina Spektor Rilkeana Rita Redshoes Roberto Juarroz Rui Almeida Running for our lives Rute sabedoria prática She's Gone Speak Low Stacey Kent Stars of Leo Strange little girl Susan Boyle Suzanne Vega talento Tempo Teorema de Pitágoras Terrified The Ballad of Lucy Jordan The Beatles The Kiss The Queen and the Soldier The Ride The stranglers Thelonious Monk Tom Waits Uberto Stabile Ulla Hahn Um Dia e Outro Dia Um pensamento muitas vezes repetido Um Ritmo Perdido uma espécie de recensão Uma gaivota voava Uma história de amor é sempre extraordinária Ute Lemper variações com pássaro de vidro Vasco Gato Versão de Rute Mota vídeo Villier de L'Isle-Adam Vinicius de Moraes W. B. Yeats Watch her disappear William Turner Woman left lonely Yann Samuell Yma Sumac Zeca Afonso Zeca Baleiro