segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Quem me feriu perdoe-me. *



Ou: um animal abandonado será sempre um animal abandonado; não se espere que olhe os outros como seus iguais. Não importa quem o feriu antes. Importam as feridas e a sua memória. Não se pode trazer um animal ferido para dentro de casa e esperar que ele aguarde tranquilamente a hora da refeição e da água fresca, a saída e o regresso do novo dono. O que é dado aos restantes animais não lhe basta. Ele precisa de muito mais e de muito menos, e com muito mais urgência. Por exempo, morrer de fome e de sede é o suficiente; se for garantia de que não volta a sentir o abandono, bastará.
Um animal ferido é sempre um animal à espera de ser ferido.



* Adélia Prado (2003), Com Licença Poética -- Antologia, Lisboa: Cotovia.


She'll do crazy things on lonely occasions









GÊNERO


Desde um tempo muito antigo até hoje,
quando um homem segura minha mão,
saltam duas lembranças guarnecendo
a secreta alegria do meu sangue:
a bacia da mulher é mais larga que a do homem,
em função da maternidade.
O Osvaldo Bonitão está pulando o muro de dona Gleides.
A primeira, eu tirei de um livro de anatomia,
a segunda, de um cochicho de Maria Vilma.
Oh! por tão pouco incendiava-me?
Eu sou feita de palha,
mulher que os gregos desprezariam?
Eu sou de barro e oca.
Eu sou barroca.



CASAMENTO


Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.


Adélia Prado (2003), Com Licença Poética -- Antologia, Lisboa: Cotovia.


domingo, 30 de agosto de 2009



Minha tristeza nunca foi mortal,
renasce a cada manhã.


Adélia Prado


quinta-feira, 27 de agosto de 2009

quarta-feira, 26 de agosto de 2009



Talvez da poesia possas receber alguma coisa;
Nem sempre o que sabemos nos encontra
E o mal de estar vivo é a incompreensão do mundo.

Porém, deixa-te estar aí, sentado, sem nada fazer --
É melhor do que arriscar, mais simples, desculpa-te
Com a angústia e com a decadência. Da poesia

Alimenta-te cautelosamente, não deixes que
Preencha qualquer dos vazios secretos do teu corpo.
Talvez as palavras sejam apenas justificações para

O instinto, para a necessidade de supressão da
Dor e do esquecimento que incomodam. Nunca
Seremos mais do que apenas carne e sangue

Enquanto o medo for da cor da pele do rosto.
Talvez o tacto seja uma alternativa ao texto;
Ou a sublimação exaustiva do desejo. Talvez

A memória seja apenas uma parte da ficção,
Um desconsolo feito alternativa aos dias,
Ao sonho e às responsabilidades. Dormir

Fecunda os processos de reunir palavras,
Simplifica as manobra do estilo e segura
A vontade da redundância. Tudo se perde

Na ânsia de testemunhar cada sensação.
E as mentiras com que nos justificamos
São o gesto arbitrário da melancolia quando

Nada mais nos pode impedir de recolher
Ao limite mais recôndito da esperança.
Deixa-te estar quieto, nada esperes que

Te impeça a inocência e a ignorância,
Pois as palavras nunca serão mais do que
Meras reminiscências, vagas, do que sentes.


Rui Almeida (2009), Lábio Cortado, Torres Vedras: Livrododia. Pp. 10-11.







sábado, 22 de agosto de 2009

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

I'm learning, Elizabeth.







One Art



The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.


--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.


Elizabeth Bishop
Na falta de um livro à mão, retirado daqui.







quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Et ton silence trouve mon silence



William Turner, Fishermen at Sea






je ne sais pas qui tu peux être
je ne sais pas qui tu espères
je cherche toujours à te connaître
et ton silence trouble mon silence
je ne sais pas d'où vient le mensonge
est-ce de ta voix qui se tait
les mondes où malgré moi je plonge
sont comme un tunnel qui m'effraie
de ta distance à la mienne
on se perd bien trop souvent
et chercher à te comprendre
c'est courir après le vent
je ne sais pas pourquoi je reste
dans une mer où je me noie
je ne sais pas pourquoi je reste
dans un air qui m'étouffera
tu es le sang de ma blessure
tu es le feu de ma brûlure
tu es ma question sans réponse
mon cri muet et mon silence


terça-feira, 18 de agosto de 2009

O quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos.




Ele temia magoá-la se lhe contasse sobre a sua relação com ela. Ela não sabia de nada. Ela magoou-se por perceber que ele temia magoá-la.


It will all be allright, it will all be okay





Eu faço como me ensinaste, mãe. Não atrapalho, não incomodo, não perturbo, não faço muito barulho. Só um pouco, quando tem mesmo de ser. E, mesmo assim, não é porque eu o prefira, é porque é a única maneira. Em troca, só espero o mesmo, que deixem a minha respiração serena. Mas só me ensinaste a mim, mãe, e não há quem me defenda de todos os que não ensinaste.






quinta-feira, 13 de agosto de 2009


«Na rua, andando, Águeda ainda se sentia confusa. Estranhava o que via. E sem saber porquê julgava-se no começo da vida, fora dos lugares, das situações. Tinham-lhe dito na véspera que ela parecia cada vez mais nova. Ouvira e calara, lisongeada. Era um segredo seu: rejuvenescer, infantilizar-se... Fugia não sabia bem de quê, metia-se numa carapaça juvenil, reconquistada...
Mas de que lhe serviam aqueles ditos, aqueles fáceis cumprimentos? De nada. O que na verdade a podia satisfazer era sentir-se necessária a outrem. Saber que alguém tinha saudades suas, urgência da sua pessoa, da sua companhia.»


Irene Lisboa (1998), «Não se diz mais nada» em Obras de Irene Lisboa -- Volume IX -– Título Qualquer Serve (Org. e pref. de Paula Morão), Editorial Presença: Lisboa.


Strange little girl



quinta-feira, 6 de agosto de 2009




Foi em Julho, na revista Os Meus Livros: um texto bonito do António Manuel Venda sobre o que escrevo. Por vários motivos, só agora faço o agradecimento. Obrigada, António.


quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Pictures of you *




É sempre com alguma cobiça que vejo as fotos dos outros. «Este aqui, quem é?», pergunto-me, nunca te, que a cobiça é algo que se prova em segredo. «Há quanto tempo, onde foi? E nestoutra aqui, com cabelo tanto, que sonho te des(a)fiava o olhar? É de toda esta gente, de todos estes lugares que a tua pele se sustém? O que perdeste? O que ganhaste? O que ainda guardas nas linhas das mãos? E era verdade o sorriso?» Não me respondas, que eu não te pergunto: cobiço. Percorro paisagens e rostos como quem constrói um itinerário anacrónico, o postal ilustrado da minha viagem de não te conhecer.



* The Cure



25 de Abril de 1974 A Cólera Divina A Mulher Nua A Paixão segundo G. H. A Sede Entre os Limites à Sua imagem a ver a banda passar A Viagem do Elefante Adalberto Alves Adélia Prado Adília Lopes afectos agarra a rapariga pela cintura Alela Diane Amor é descanso de busca Amor Nosso de Cada Um de Nós Amor romântico Amores Ana Hatherly Ana Teresa Pereira Anna Ternheim António Gonçalves Anywhere on this road Aprendi a maravilhar-me April Arnaldo Saraiva Baladas Hebraicas Barry Schwartz Billie Holiday Blame it on my youth Blowin' in the wind Bob Dylan Broken Social Scene Canción de las simples cosas Carlos Ascenso André Ces petits riens Cesar Isella Charlie Parker Christina Courtin Clarice Lispector Com Licença Poética Contos Cruéis Cry me a river Dave Brubeck David Hockney Descansar dos homens despedidas Dias de tempestade e de silêncio Dizzie Gillespie Dizzy Gillespie Egon Schiele Elizabeth Bishop Else Lasker-Schüler Em busca do meu unicórnio azul esta distância que nos une Eugene Wright Extraordinary Machine Falling slowly faz de conta que é um poema Felled Totem I Fiona Apple Fishermen at Sea Foreign Country Fotos Françoise Hardy Frou Frou Glen Hansard Grândola Vila Morena Há muito tempo que que quero escrever este post Helena Almeida Hello Goodbye Her DIsappearing Theme Hilda Hilst Holly Cole Hot House I dreamed a dream I'm a Vamp I'm gonna sit right down and write myself a letter idade inéditos Irene Lisboa Janis Joplin Jeff Buckley Jesca Hoop. Love Is All We Have Joan as Police Woman João Barrento Joe Morello John Parish Jon Brion José Saramago Joy Division Klimt La question Lábio Cortado Laços de Família Laureano Silveira Let go Lhasa Look what they've done to my song Love me if you dare Loveology Lover you should have come over Luísa Costa Gomes Luiza Neto Jorge M. Ward Make It Go Away manuel a. domingos Manuel Mujica Lainez Manuel Poppe mapa Marguerite Duras Maria de Lourdes Guimarães Maria Graciete Besse Maria Tecce Marianne Faithfull Mark Lanegan Marketa Irglová Marquês de Chamilly Melanie Safka My Favourite Things Não se diz mais nada Não sou uma andorinha Nice work if you can get it notas avulsas Nu azul O Diabo e o Filósofo O Marinheiro de Gibraltar O Meu Coração É Árabe O Pássaro de Vidro O Pavão Negro O Unicórnio Ode descontínua e remota para flauta e oboé Oh My Mr. Blue Olhar Fractal Omertà One Art Os Pássaros Brancos e Outros Poemas Ovídio Pablo Picasso página 161 Para não desaprender a fala Para viver um grande amor Passover Patchwork Paul Desmond Paulo César Nascimento PJ Harvey Plácido Poema para o Zé Poesia Vertical por razões que nos escapam Preciosidade Prémio Nacional Trindade Coelho Quem me feriu perdoe-me Querido Diário Regina Spektor Rilkeana Rita Redshoes Roberto Juarroz Rui Almeida Running for our lives Rute sabedoria prática She's Gone Speak Low Stacey Kent Stars of Leo Strange little girl Susan Boyle Suzanne Vega talento Tempo Teorema de Pitágoras Terrified The Ballad of Lucy Jordan The Beatles The Kiss The Queen and the Soldier The Ride The stranglers Thelonious Monk Tom Waits Uberto Stabile Ulla Hahn Um Dia e Outro Dia Um pensamento muitas vezes repetido Um Ritmo Perdido uma espécie de recensão Uma gaivota voava Uma história de amor é sempre extraordinária Ute Lemper variações com pássaro de vidro Vasco Gato Versão de Rute Mota vídeo Villier de L'Isle-Adam Vinicius de Moraes W. B. Yeats Watch her disappear William Turner Woman left lonely Yann Samuell Yma Sumac Zeca Afonso Zeca Baleiro