Este blogue está esquisito. Alguém confundiu as cores dos comprimidos. Não sei é quem.
terça-feira, 31 de março de 2009
Querido Diário
P.S.:
E essa história de andares avenida fora a falar sozinha e a fazer sabe-se lá que expressões faciais, ora com os olhos postos nas pedras da calçada ora com os olhos postos no céu e nas pontas dos telhados, também não me parece boa ideia. Que os desconhecidos que se cruzam contigo fiquem a pensar que és maluquinha, não é problemático. Podem pensar o que quiserem. Não são relevantes para ti. Não te incomoda particularmente. O que pode ser problemático é alguém vir atrás de ti, há não sabes quando tempo, a observar o teu comportamento. Alguém que também pode pensar o que quiser de ti, mas não podes dizer que não te incomoda particularmente, até porque não tens muito jeito para mentir à minha frente. Já falámos hoje da incapacidade de dominares um certo tipo de perturbação, não? Bem me queria parecer.
I'm Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter
Caríssima:
Colagem com rainhas.
segunda-feira, 30 de março de 2009
Querido Diário
Hoje fui à Biblioteca Nacional e finalmente tenho o meu cartão de leitora. Quando eu disse ao que ia, a funcionária que me atendeu perguntou-me se eu já tinha feito pesquisa. Imaginei que a senhora não estivesse interessada nas minhas pesquisas sociológicas nem nas minhas pesquisas de letras de canções no Google. O mais provável seria estar a inquirir-me acerca do catálogo da própria Biblioteca (onde eu também já tinha pesquisado, sim!, sou uma grande pesquisadora, já se vê). Ainda assim, a pergunta parecia-me ambígua e resolvi confirmar se era a pesquisas no catálogo que se referia. Era. Queria a diligente senhora saber se eu o conhecia e «se estava consciente». Ora bem, eu estava de pé e estava a manter uma conversa com vista a um determinado fim. A não ser que eu estivesse a alucinar e assim continue neste preciso momento, quero crer que estava consciente, sim. Mas não o verbalizei. À semelhança do que se tinha passado antes, fiquei a pensar que o uso da expressão «estar consciente» era ambíguo. Continua a parecer-me ambíguo. Uma segunda hipótese seria a senhora querer saber se eu estava consciente do sítio onde me estava a meter, dos perigos que corria...
domingo, 29 de março de 2009
O teu chão é onde tens os pés.
Ou por que eu não uso saltos altos.
Do Campo Pequeno à Baixa são uns quatro quilómetros. E estava uma belíssima manhã: soalheira e fresquinha, tal como eu gosto.
ABÛ AL-'ABDARÍ (século XI)
já era nela, antes de ser paixão,
inquietude a cada momento
já o amor lhe dominava o coração
ainda antes de sentir o seu tormento
Adalberto Alves (Org.) (1999) [1988], O Meu Coração é Árabe, Lisboa: Assírio & Alvim, p. 101.
quinta-feira, 26 de março de 2009
outro dia
Quem me ouve
e quem me lê
julga, às vezes,
que eu fui como os ricos...
que tive e que dei,
que desprezei
e que desbaratei...
Ó, nada tive!
Nada recebi
e nada dei.
Outros julgam
que eu fui como os pobres,
que mendiguei...
Nem como esses fui!
Os pobres pedem
e aceitam.
Eu nada aceitei.
Nada conheci!
Vivi sempre como os cegos,
de olhos abertos,
parados
e abstractos...
Todos me magoam!
Uns porque acham ridícula
a minha pobreza,
outros porque duvidam
da minha singeleza.
Irene Lisboa (1991), Obras de Irene Lisboa -- Volume I -- Poesia I -- Um Dia e Outro Dia e Outono Havias de Vir, Lisboa: Presença. Pp.: 156-157.
quarta-feira, 25 de março de 2009
de vez em quando convidam-me
para um teatro de marionetas
são gerações e gerações inteiras
famílias suspensas por cordões
o director é de madeira
e gosta muito de mim como se me lisonjeasse
mas apenas cobiça nos meus braços articulados
a utilidade para a configuração do seu cenário
não conhecem a minha boca de carne
encarnada
em casa é sempre o mesmo tempo
não é ainda a morte porque a morte é movimento
apenas uma forma anterior de imobilidade
quando pergunto que horas são
respondem sempre com a mesma hora
dos seus relógios parados e eu sei que é verdade
embora no lado de fora seja sempre
um pouco mais cedo um pouco mais tarde
e eu chegue sempre um pouco_
ninguém sai de casa na minha simultaneidade
tenho esta condição de olhar sozinha
penso demasiado e não me basta
A canção de Rute, como é?
Alguém me ouve se eu gritar?*
Quem ama
fica cheio de não-saber
não pára de procurar
Escrevendo o fulgor do êxtase
percorre o rio do sangue
conhece os horrores da guerra íntima
toda vermelha e crua
fértil em rupturas
incessante nos ataques
Não
nenhum rosto materno sobre o nosso debruçado
nos consolaria
se houvesse esse rosto
essa ternura impossível de entender
Nada nos pode consolar
do excessivo peso do amor
que oprime como a noite
cheia de não-saber
como tudo o que é divido
e inventado
De facto
não amamos como as flores
totalmente simples na sua entrega
Quando amamos
deixamos de ser o que somos
trasnfigurados pelo desejo
que mata
destrói
violenta tudo
E perscrutando a noite
que a si própria se escava e aplaina
amando
fitamos a intermitência das estrelas
deslumbrados por um brilho extinto
que fere com lentidão sideral
o ermo íntimo do nosso coração
Inatingível sempre
e como tal desejado
o verdadeiro amado
III-A
Quem ama
não pára
percorre
o rio do sangue
a guerra íntima
Não
nada nos pode consolar
do peso do amor
do peso do não-saber
do peso do divino
Transfigurados pelo desejo
fitamos as estrelas
deslumbrados
perscrutando
um brilho extinto
que a si próprio
se escava
e aplaina
III-B
cheios de não-saber
de guerra íntima
de rupturas
Nenhum rosto
nos pode consolar
do que é inventado
Não
não amaremos como as flores
totalmente simples
O desejo
violenta
tudo
fere
o ermo íntimo do nosso coração
Ana Hatherly (1999), Rilkeana, Lisboa: Assírio & Alvim, 40-43
*Op. ct.: p.29.
Este blogue já se chamou Esta distância que nos une.
segunda-feira, 23 de março de 2009
Já é tempo da Metropolitano de Lisboa me atribuir um subsídio por serviços prestados. Afinal, sempre são cerca de oito de anos de utilização mais ou menos regular deste meio de transporte; cerca de oito anos a esclarecer dúvidas aos meus co-utentes (houve mesmo uma vez em que me desviei completamente do meu percurso para me assegurar de que uma senhora com um ar muito confuso conseguia chegar ao seu destino).
De há uns anos a esta parte, são as máquinas de venda automática de bilhetes. Fantásticas, não são? Pois. Mas acontece que por vezes avariam ou que nem sempre os utentes percebem como é que aquilo funciona (se eu quisesse usar uma daquelas expressões de que agora toda a gente gosta muito, poderia dizer que nem toda a gente possui a literacia e a competência tecnológica para utilizar as máquinas) e, quando tal acontece, nem sempre há um funcionário da Metropolitano no átrio da estação. Nessas alturas, garanto-vos, dá muito jeito se eu for a passar -- há até quem aguarde pacientemente que eu termine uma conversa telefónica para depois me pedir ajuda para tirar o bilhete.
E mesmo quando há uma funcionária da Metropolitano, devidamente identificada, há quem prefira pedir ajuda a esta que vos escreve. Aconteceu-me hoje. Fiquei a perguntar-me porquê, mas, reparando no ar enjoado de quem-vai-prestar-mais-um-favor-a-esta-gente-tonta-que-não-percebe-nada-disto da funcionária, não durante muito tempo.
sábado, 21 de março de 2009
A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se
O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita
O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende
E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta
Ana Hatherly (2003), O Pavão Negro, Lisboa: Assírio & Alvim.
quinta-feira, 19 de março de 2009
Novamente o oráculo da página 161, 5.ª linha.
Desta vez, a pedido do António.
terça-feira, 17 de março de 2009
Não estava numa pilha, estava arrumadinho na estante, que nem sempre o que está arrumado está esquecido e nem sempre o que está em pilhas mais ou menos desequilibradas é o que fica mais perto de nós:
quinta-feira, 12 de março de 2009
Página 161, 5.ª linha.
Lá fui à procura da página 161…
Dos dois livros que tinha na secretária, a página 161 do primeiro não chegava a ter cinco linhas, e a quinta linha da página 161 do segundo pertencia a uma nota respectiva a um dos capítulos do livro.
Tive de me levantar da secretária e procurar na pilha dos livros da mesa-de-cabeceira. O que estava em terceiro ou quarto lugar a partir do topo lá tinha mais de 161 páginas:
«Esta formalização é inseparavelmente transformação e transubstanciação: a substância significada é a forma significante na qual se realizou.»
Bourdieu, Pierre (1998) [1982], O que Falar Quer Dizer. Oeiras: Difel.
Caso tenham ficado curiosos quando à frase integrante da nota de capítulo, aqui fica:
«’Tall’ is unmarked with respect to ‘short’: thus we ask of a person or an object, ‘how tall is she/he/it?’ rather than ‘how short is she/he/it?’ ‘How tall’ is the default expression regardless of our estimate of the height of the person or object in question.»
Cameron, Deborah e Kulick, Don (2006) [2003], Language and Sexuality. Cambridge: Cambridge University Press.
E não acorrento ninguém. Se alguém quiser vir comigo, que venha.
terça-feira, 10 de março de 2009
quarta-feira, 4 de março de 2009
Ninguém dá por nada.
«Oh!, estás a ouvir? A velha veio ter comigo, que queria perguntar uma coisa. E eu disse-lhe que já, já não podia, mas que estava só a acabar uma coisa e já lá ia. Acabei de arrumar, e uns dez minutos que eu ‘tive ali com a velha. Isto e mais aquilo. E a perguntar-me se aquilo tinha ferro, e se tinha mais ferro do que o outro. Nunca mais se calava e não sei quê. E eu é que tinha de responder. E depois daquilo tudo disse que afinal ia levar outra coisa.»
Lisboa, 4 de Março de 2009. Loja Modelo Bonjour do Campo Grande (que é como quem diz ali mesmo ao pé da rotunda de Entrecampos).
Reprodução tão próxima quanto possível do que um jovem funcionário da reposição comentava alegremente com um colega, entre as 15.30 e as 16.00, horário normal de expediente, com clientes a circularem no interior da loja.

Esta distância que nos une by Rute Mota is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Compartilhamento pela mesma Licença 2.5 Portugal License.
