quinta-feira, 30 de outubro de 2008




Carga & Transportes


Onde morrem os pássaros? Onde morrem,
que os não vejo morrerem na proporção
em que nascem? São milhares, e no jardim
defronte da minha casa nem sequer há
muita vegetação. Onde morrem os pássaros?

Vieste no meio de um arbusto, ó esfinge, ó
estátua, tens um coração no meio
dessa pedra toda? Então entrega-te
a este coração, ele vem de longe, de muito
longe, de tão longe que se esqueceu
do seu nome, bate depressa e devagar
como um vulgar coração, apressa-se
e anda lento, respira fundo e por vezes vai
por ali fora como um cavalo com o freio
nos dentes, só mesmo outro cavalo
com o freio nos dentes o poderia acompanhar.

Mas a importante questão dos pássaros,
cada vez mais persistente por causa
de mais um copo de vinho, põe-nos a olhar
para o céu, para as nuvens que vão
passando, na tentativa de ver cemitérios
aéreos. Onde morrem os pássaros?

Será que a terra os come, a água os leva?
Ah, não, desfazem-se no ar, ou são levados
pelas nuvens, as suas penas dão a cor
da chuva, tudo morre num pássaro
menos as asas, e aí vão elas, puxando
as nuvens pelos ares. Pássaros eternos,
voam para o céu nos meus olhos de miragem?

Tu és real, estás aqui e tens ossos, pálpebras
e fogo próprio, tu és a fonte metafórica
da existência, o deus, a deusa, a doença
incurável, o mal da alma, tu representas tudo.
A palavra amor já me arranha a garganta
e se junta com a palavra adeus então
sai um som que não se põe em música.


Helder Moura Pereira. Revista Magma, N.º 1, 2005.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008



Seria preferível, parece-me, lembrar-me do que sonho com mais detalhe, a ficar com estas impressões indefinidas, que me mantém, no dia seguinte, numa espécie de angústia obsessiva de tentar perceber o que se passou.
Havia uma espécie de tribunal, ou algo que eu assim entendi, e eu estava sentada, era ré ou testemunha. Houve alguém que me fez uma pergunta e o que eu respondi era tão verdade que acordei a chorar.

If I start to cry, I might never stop. (Holly Cole)

terça-feira, 21 de outubro de 2008



Os músculos dos cães coincidem
com os músculos da noite:

protege as mãos se não
os distingues no ruído da máquina
que sobre ti avança
e pesa cada sílaba no limite
de onde as íris te iludem:

a geometria do medo não se demove
nas falanges, onde os caninos incidem
gesto menor é o que te convém.




sexta-feira, 17 de outubro de 2008

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Holly Cole - Make It Go Away

A noite passada sonhei que dois cães me mordiam as mãos. Não é frequente lembrar-me dos sonhos, pelo que lembrar-me deste me incomoda. Não sei como me deparei como eles, não sei se fui ao encontro deles, se vieram eles ao meu. Não recordo sequer um espaço definido onde aconteceu. Eram dois cães, grandes. Boxers. Tenho a sensação de que havia uma pessoa que os acompanhava, mas não estou segura. Dos cães, sim, lembro-me. E das minhas mãos nas suas bocas. Não sei como foi. Talvez eu tenha partido do pressuposto de que não me fariam mal, tenha sido demasiado confiante, e tenha avançado as mãos para eles. Ou talvez tenha sentido medo e não o tenha sabido disfarçar, como se diz que é suposto fazer quando não queremos que os cães nos ataquem. Sim, havia uma pessoa com os cães, alguém a quem eles obedeceriam e que nada terá feito para evitar o que sucedeu. Num dado momento, a boca de um dos cães envolveu a minha mão esquerda quase até ao pulso. A minha primeira sensação foi de algum conforto e protecção, suponho que porque nesta altura do ano as mãos tendem a arrefecer e a boca do cão era morna e íntima. Sim, havia alguém com os cães, não sei quem, uma presença, uma forma antropomórfica que poderia ser qualquer pessoa, que me instava a deixar que o outro cão fizesse o mesmo com a minha mão direita, que seria igualmente bom, não haveria mal. Sim. Aqui, não sei, parece-me que hesitei, que dirigi a minha mão para o outro cão e, ao vê-lo avançar a boca, temi e recuei. Fiquei com os seus dentes fincados a meio da mão, magoavam-me os dedos. Então, não sei se por eu não ter confiado no segundo cão, a boca do primeiro aumentou a pressão na minha outra mão. À dor aguda e imediata da mão direita, seguiu-se a dor crescente da mão esquerda. Não sei se a pessoa que acompanhava os cães nada podia fazer para me ajudar, uma vez que eu tinha falhado o teste – ocorre-me agora que talvez fosse uma espécie de teste –, ou se podia, mas não queria. Sei que as minhas mãos presas me pesavam e doíam. Sei que acordei antes que os cães tivessem libertado a pressão das suas bocas e, ainda agora, sinto a mão esquerda mais quente do que a direita. E apetece-me pedir à pessoa do meu sonho, fosse quem fosse, se ainda lá estiver, make it go away.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Stacey Kent - Ces petits riens (Live)

Adenda crítica

Parábola:
é mais fácil às pedras
terem seu lugar no mundo
do que aos corações
duas mãos onde assentar.


Rute Mota, Nenhuma Palavra Nos Salva, Livrododia, 2007.


O lugar do coração não é nas mãos, ainda que sejam as tuas. Um coração não se quer para pousar, mas para pulsar. Um coração morre quando lhe trocamos o lugar.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Maria Schneider Jazz Orchestra - Choro Cantado



A minha tristeza


Minha tristeza minha resplandecente
chaleirazinha de cobre a brilhar
como um brinco
Anda vamos pôr
umas lágrimas
mas gra-
ciosas doces como
baunilha para 
lhe agradar
claro
quando ele
nunca mais voltar.


Ulla Hahn, A Sede Entre os Limites, Relógio d'Água, 1992. Versão de João Barrento.

sábado, 11 de outubro de 2008

Pink Floyd - Keep Talking

Fala do bicho do mato #A tua voz em volta do pescoço



Publicado originalmente em 1930, A Voz Humana, de Jean Cocteau é um monólogo de uma mulher desesperada devido ao término de uma relação amorosa. Durante toda a peça, a mulher fala, ao telefone, com aquele que a terá abandonado. Não havia telemóveis. Havia, isso sim, telefones e telefonistas e linhas cruzadas. E é este o elemento que confere um maior dramatismo ao texto: o telefone enquanto meio de ligação a um amado distante, mas, que ao mesmo tempo, pelas suas características técnicas, está continuamente sujeito à iminência da interrupção.

O que fazer, o que sentir quando o meio que nos liga a quem mais queremos – ainda que apenas tecnologicamente, visto que deixou de haver correspondência no desejo – é tão precário? “Está, está lá, está?..........Não, minha senhora, são as linhas cruzadas, desligue; por favor desligue.................................Está?.......Tenho prioridade, porque sou assinante........ (...) ..........Deixe-me em paz...............Claro que não sou o Dr. Schmit.........”

No entanto, qualquer tentativa de ligação, de aproximação a alguém que não nos quer por perto só poderá ser precária. Com telefone, ou sem telefone, será sempre “ao longe, muito ao longe” que se ouvirá o outro, ainda que, por vezes, apenas por vezes, seja “como se falasses aqui no quarto”. Talvez porque a vontade de o ouvir seja tanta tal ilusão possa ser criada. A mesma vontade que não tem pudor de pedir: “Se desligarem, pede logo outro chamada”, porque aquele meio de comunicação é falível, mas é ainda o que, embora artificialmente, a liga ao amado, o que lhe traz a sua voz.

Trata-se de uma mulher ”de cabelos brancos e uma infinidade de rugazinhas”, que lembra que ”outrora, as pessoas nas nossas circunstâncias marcavam um encontro e podiam então perder a cabeça, esquecer as promessas, arriscar um beijo ou um abraço", outrora quando ainda não havia telefone, dois ex-amantes que quisessem cordialmente saber um do outro, teriam de se encontrar presencialmente e, então, o campo dos desenlaces possíveis poderia incluir um olhar, um gesto, um toque que devolvesse à mulher o amado perdido. Não assim. ”Entre nós, separados por este telefone, o que acabou, acabou”. Não há recomeços. Com aquele telefone que a une e a separa do amado, a mulher pode chorar sem que ele o veja, mentir-lhe, dizer-lhe que não encontra as suas luvas “crispin” enquanto as beija.

Esse telefone que a mulher quer tanto quanto não quer. Esse telefone que a afasta irremediavelmente do amado, sendo, todavia, a única forma de com ele comunicar. ”Este fio é a única coisa que me liga ainda à nossa vida”.

E:
”Claro que é preciso desligar, mas custa muito.......................................Sim. Ter a ilusão de estarmos abraçados um ao outro e de repente interpor caves, esgotos, uma cidade inteira entre nós........................................Lembras-te da Ivone, que não podia conceber como a voz passava através dum fio tão torcido? Pois tenho o fio em volta do pescoço. A tua voz em volta do pescoço........................................”

Que importância tem uma voz? Que importância tem aquela voz, que é, simultaneamente, elemento de união e distanciamento porque substitui a presença?

”Meu amor.........................................................Meu amor perdido...........................................................” Tenho a tua voz em volta do pescoço. Que acontecerá quando pousares o auscultador? Será o afrouxar do laço que me permitirá respirar melhor ou, pelo contrário, o trejeito final do estrangulamento?




Jean Cocteau, A Voz Humana, Assírio & Alvim, 1999. Tradução de Carlos de Oliveira. Nota introdutória de Gastão Cruz.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Miles Davis Quintet - I Fall in Love too Easily

Sometimes I don't fall asleep as easily as I fall in love.

Madeleine Peyroux - I'm All Right


Sticks and stones break my bones
but tears don't leave any scars

Damien Rice - 9 crimes

It's the wrong kind of place
to be thinking of you



A Noite


A noite 
rodeia-nos com os seu braços longos,
com as suas ferramentas negras,
e aperta-nos,
como se fosse a grande mãe antiga,
inclinada sobre os berços à deriva.

A noite
pinta os lábios de vermelho e as unhas,
abre os decotes de algodão e seda,
calça sapatos muito altos,
quando dança sobre as nossas vidas.

A noite
acende as suas luzes, as suas violentas
luzes amarelas,
e então veremos as estrelas, os recifes, as
ruas sem árvores,
todas as portas fechadas.

A noite
deita-se mais tarde, ao lado dos que não têm
nada,
nem amantes, nem amadas,
perseguidos por uma secreta ansiedade,
por uma dúvida:

quem é esta meretriz,
de quem é este corpo de mistério com os seus
anéis que brilham?
E a noite beija-os com o veneno doce da sua
boca,
morde com os dentes brancos a carne que os
conduziu para o sono.
A noite não responde.

Há quem a sinta mais cedo,
quem a procure quando o sol começa a cair no
horizonte,
porque quer os seus seios altos,
o seu regaço de rosas ternas onde esquecer a
dor,
as atribuladas noções do tempo,
onde ler, nos espelhos turvos da
madrugada,
o destino dos órfãos e dos malditos.

A noite
atira os seus despojos aos litorais do mundo,
remos, crucifixos,
cadáveres azuis de barcos naufragados,
de suicidas ternos,
de paixões assassinadas por Setembro.

A noite
canta nos íngremes becos da cidade,
e a sua voz rouca bate nas nossas fontes,
nos búzios que trazemos por dentro.


José Agostinho Baptista, Esta Voz É Quase o Vento, Assírio & Alvim, 2004.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Fala do bicho do mato #A simpatia anunciada


Quando uma pessoa que eu conheço, perante a iminência de eu me cruzar com uma segunda pessoa -- que eu ainda não conheço, mas que a primeira pessoa deste post conhece --, aproveita cada pequena oportunidade para me dizer o quanto essa segunda pessoa é simpática, começo a sentir-me ligeiramente cansada da imensa simpatia da pessoa que ainda nem conheço. Do tom de voz com que tal simpatia é repetidamente anunciada, também. E ainda, talvez, um pouco ofendida. 
Quero dizer, se a segunda pessoa é assim tão simpática, eu aperceber-me-ei disso por mim mesma, ou não? Ou estará a primeira pessoa a querer fazer com que eu me sinta no dever de ser muito simpática para uma pessoa que eu ainda nem conheço, mas que, lá está, é muito simpática? E se, eventualmente, eu discordar da avaliação da primeira pessoa e não considerar a segunda assim tão simpática quanto o anunciado? 
Na verdade, a simpatia anunciada de alguém que eu não conheço é algo que não me interessa particularmente.
Oh! Ao fim e ao cabo, talvez eu não seja uma pessoa simpática. Lamento. Ou nem por isso.

domingo, 5 de outubro de 2008

25 de Abril de 1974 A Cólera Divina A Mulher Nua A Paixão segundo G. H. A Sede Entre os Limites à Sua imagem a ver a banda passar A Viagem do Elefante Adalberto Alves Adélia Prado Adília Lopes afectos agarra a rapariga pela cintura Alela Diane Amor é descanso de busca Amor Nosso de Cada Um de Nós Amor romântico Amores Ana Hatherly Ana Teresa Pereira Anna Ternheim António Gonçalves Anywhere on this road Aprendi a maravilhar-me April Arnaldo Saraiva Baladas Hebraicas Barry Schwartz Billie Holiday Blame it on my youth Blowin' in the wind Bob Dylan Broken Social Scene Canción de las simples cosas Carlos Ascenso André Ces petits riens Cesar Isella Charlie Parker Christina Courtin Clarice Lispector Com Licença Poética Contos Cruéis Cry me a river Dave Brubeck David Hockney Descansar dos homens despedidas Dias de tempestade e de silêncio Dizzie Gillespie Dizzy Gillespie Egon Schiele Elizabeth Bishop Else Lasker-Schüler Em busca do meu unicórnio azul esta distância que nos une Eugene Wright Extraordinary Machine Falling slowly faz de conta que é um poema Felled Totem I Fiona Apple Fishermen at Sea Foreign Country Fotos Françoise Hardy Frou Frou Glen Hansard Grândola Vila Morena Há muito tempo que que quero escrever este post Helena Almeida Hello Goodbye Her DIsappearing Theme Hilda Hilst Holly Cole Hot House I dreamed a dream I'm a Vamp I'm gonna sit right down and write myself a letter idade inéditos Irene Lisboa Janis Joplin Jeff Buckley Jesca Hoop. Love Is All We Have Joan as Police Woman João Barrento Joe Morello John Parish Jon Brion José Saramago Joy Division Klimt La question Lábio Cortado Laços de Família Laureano Silveira Let go Lhasa Look what they've done to my song Love me if you dare Loveology Lover you should have come over Luísa Costa Gomes Luiza Neto Jorge M. Ward Make It Go Away manuel a. domingos Manuel Mujica Lainez Manuel Poppe mapa Marguerite Duras Maria de Lourdes Guimarães Maria Graciete Besse Maria Tecce Marianne Faithfull Mark Lanegan Marketa Irglová Marquês de Chamilly Melanie Safka My Favourite Things Não se diz mais nada Não sou uma andorinha Nice work if you can get it notas avulsas Nu azul O Diabo e o Filósofo O Marinheiro de Gibraltar O Meu Coração É Árabe O Pássaro de Vidro O Pavão Negro O Unicórnio Ode descontínua e remota para flauta e oboé Oh My Mr. Blue Olhar Fractal Omertà One Art Os Pássaros Brancos e Outros Poemas Ovídio Pablo Picasso página 161 Para não desaprender a fala Para viver um grande amor Passover Patchwork Paul Desmond Paulo César Nascimento PJ Harvey Plácido Poema para o Zé Poesia Vertical por razões que nos escapam Preciosidade Prémio Nacional Trindade Coelho Quem me feriu perdoe-me Querido Diário Regina Spektor Rilkeana Rita Redshoes Roberto Juarroz Rui Almeida Running for our lives Rute sabedoria prática She's Gone Speak Low Stacey Kent Stars of Leo Strange little girl Susan Boyle Suzanne Vega talento Tempo Teorema de Pitágoras Terrified The Ballad of Lucy Jordan The Beatles The Kiss The Queen and the Soldier The Ride The stranglers Thelonious Monk Tom Waits Uberto Stabile Ulla Hahn Um Dia e Outro Dia Um pensamento muitas vezes repetido Um Ritmo Perdido uma espécie de recensão Uma gaivota voava Uma história de amor é sempre extraordinária Ute Lemper variações com pássaro de vidro Vasco Gato Versão de Rute Mota vídeo Villier de L'Isle-Adam Vinicius de Moraes W. B. Yeats Watch her disappear William Turner Woman left lonely Yann Samuell Yma Sumac Zeca Afonso Zeca Baleiro